Sensei António Hilmar Schalck Corrêa Pereira

Fotografia de Sensei António Corrêa Pereira.

O Contributo

A introdução em Portugal das Artes Marciais Japonesas inicia-se com a mais antiga Associação de Artes Marciais Tradicionais do país, a União Portuguesa de Budo, fundada pelo Mestre Corrêa Pereira.

 

Alguns Mestres Japoneses de Jujutsu Tradicional tinham já feito algumas tentativas de trazer esta arte para Portugal, o exemplo de Hirano Sensei e Raku Sensei. Estes, de forma esporádica, dinamizaram demonstrações públicas da sua Arte mas sem a capacidade agregadora suficiente para materializar uma Associação. Também um português, Armando Gonçalves, instrutor da PSP do Porto, escreveu alguns livros sobre a matéria. Mas nunca tinha existido antes, por razões diversas, uma organização dedicada exclusivamente ao culto do Budo.

 

O Mestre Corrêa Pereira reuniu à sua volta um grupo de pessoas que comungavam do mesmo propósito. Este era o estudo das Artes de Combate Japonesas. Neste contexto à época o Sensei Corrêa Pereira advogava que a técnica e a prática se deviam fundir de modo indissociável. E que o desenvolvimento espiritual, moral e social do praticante deveria emanar directamente da sua prática marcial.


Foi graças à sua força de vontade férrea e determinação que o Mestre Corrêa Pereira fundou a Associação originária à qual se deve a introdução do Aikido, Judo, Jujutsu e Karate-do em Portugal.

​O Caminho

O Sensei Corrêa Pereira iniciou-se à prática do Jujutsu em Berlim, na década de 1930, quando estudava engenharia química na Humboldt Universität. Regressa então a Portugal com o objectivo de aprofundar ao máximo os seus conhecimentos e de aqui expandir o seu ensino. Funda a Academia de Judo, cujo Dojo se fixa na Rua de S. Paulo até à abertura, em 1958, do Dojo de Entrecampos, modificando a sua denominação para Academia de Budo.

A orientação do ensino da Academia pode ser caracterizada pela procura da "realidade marcial" e da "evolução espiritual", demarcando-se da realidade desportiva. Algumas datas e factos ajudarão a compreender como foi difícil, por vezes, distinguir ambos os campos. No sentido desta diferenciação, o Mestre Corrêa Pereira tomou a seu cargo a árdua tarefa de erguer uma organização que defendesse os altos princípios do Budo. Para tal, rodeou-se de homens norteados pelos mesmos ideais. É meritório e necessário o reconhecimento desses praticantes cuja influência foi determinante na fundação e posterior desenvolvimento da União Portuguesa de Budo.

 

Emprestamos aqui como exemplo o Engenheiro Sebastião Durão. Alguém que, de forma particularmente activa e desde o início da Associação, muito contribuiu junto do governo para a aprovação dos seus Estatutos e em todos os momentos decisivos da história desta União.

 

Outro exemplo é o Coronel João Luís Freire de Almeida, também ele um dos fundadores desta Associação originária, que iniciou a secção de Artes Marciais do Colégio Militar, onde foi também Instrutor.

 

Acrescente-se aqui em adição, e merecidamente, o Dr. João Luís Franco Pires Martins, percursor do Karate-do em Portugal e que, para além da sua importância como praticante, assegurou durante anos o funcionamento permanente da Academia de Budo.

 

As pessoas aqui nomeadas são algumas das que maior influência directa tiveram na vida e desenvolvimento da União Portuguesa de Budo, havendo decerto muitos outros que ajudaram a transformar os objectivos e sonhos do Mestre Corrêa Pereira numa realidade material.

O Reconhecimento

A sua obra recebeu o maior aplauso por parte dos altos responsáveis nipónicos, em particular de Minoru Mochizuki Sensei, o Mestre que reuniu o maior número de graduações da história em todas as Artes Marciais. Em carta deste grande cultivador do Budo ao Mestre Corrêa Pereira, pode ler-se o seguinte:

 

(...) Eu sei bem que vossa excelência não é um judoca ‘para se divertir’ e nunca esquecerei que, no que se refere ao Judo como arte de combate, vossa excelência é o único na Europa que o compreendeu verdadeiramente. (…) Estou muito feliz por saber que a ‘definição sobre Judo’ foi feita no mundo do Judo graças aos seus esforços. É a primeira vez. O mérito do seu governo, neste ponto, brilhará eternamente; deu um ensinamento muito importante ao mundo do Judo. Quanto ao problema da divisão do Budo Judo, bem como da separação da administração, pode dizer-se que é considerada uma excelente ideia por parte do Kodokan, especialmente pelos homens de elevada graduação progressivos, ao passo que uma parte de conservadores não ousa olhá-la justamente. Todavia, depois da Segunda Guerra, quando a influência da América foi poderosa, (…) declarou-se que o Judo seria apenas um desporto. Mas somente eu, respeitando o testamento de Mestre Jigoro Kano, e insistindo que o judo não é apenas uma espécie de desporto, apoio à parte do Budo Judo, pelo que me vejo forçado a ter muitos inimigos, (…) e Mifune, 10ºDan, compreende-me profundamente.

No mesmo seguimento, Mochizuki Sensei escreveu ao Major Freire de Almeida:

(...) Eu, como Budo Judoka, li a sua carta com grande prazer e estou muito feliz por saber que Portugal toma a iniciativa para estabelecer o novo sistema, que, sem dúvida, deitará os reflexos luzidios ao mundo inteiro do Judo, e ao mesmo tempo estou persuadido de que os seus esforços e os do Sr. António Corrêa Pereira valem méritos históricos". (...)

Foi nas palavras dos grandes Mestres originais do Budo que a UBU se baseou para ultrapassar o processo de aprovação dos seus Estatutos e da própria Associação. Isto porque, numa missiva bloqueadora do Ministério lia-se então que: “o Budo é hoje no Japão uma actividade irrevogavelmente extinta, que ninguém faz, ninguém ensina, não há alunos, não há mestres, acabou, não existe; não existindo o Budo, é pelo menos incorrecta a designação de qualquer escola, clube, academia ou organização semelhante pelo nome de União Portuguesa de Budo”.

Desta forma o Mestre Corrêa Pereira, para o enquadramento e materialização do União Portuguesa de Budo, citou as palavras de todos os grandes Sensei:

Em Judo a palavra ‘Budo’ designa particularmente a autodefesa, isto é, o Judo estudado como arte marcial; ao passo que o ‘Undo-Judo’ é o Judo estudado como educação física. Assim, nas escolas estuda-se o Undo-Judo, ao passo que no exército ou na polícia é o Budo-Judo

(In Carta de Ichiro Abe Sensei, 7º Dan)

O espírito do Judo foi absorvido pelo lado desportivo do Judo moderno, mas penso que bons dirigentes o conservarão.

(In boletim da Federação Francesa de Judo, Mifune Sensei, 10º Dan)


(...) Se o professor Kano ainda vivesse, decerto teria chorado; porque o Judo que elaborou com tanto esforço mudou para muito pior. (...) Relativamente à técnica também penso que o Judo antigo era mais avançado, porque havia poucas competições. (...) O Judo podia ser praticado sem constrangimento e durante muitas horas unicamente pelo seu valor real.

(In Revista do Kodokan, Otani Sensei, 9º Dan)

O Judo está agora em voga. Mas corresponderá a voga à concepção do fundador? O Judo tornou-se geralmente congénere dos desportos e jogos nos quais as competições e o campeonatismo desempenham um papel tão proeminente que parecem o fito inteiro do treino. O fundador, Jigoro Kano, condenou frequentemente a prática do Judo conducente ao Judo de competição propriamente dito. Durante a sua vida até recusou a instituição de campeonatos de Judo; e conquanto representasse o Japão na Comissão Internacional de Jogos Olímpicos, nunca teve a ideia de introduzir o Judo nos jogos olímpicos. Em vez disso patrocinava um projecto para promover uma organização mundial independente do Judo, a fim de o manter distinto de jogos e desportos.

(In Boletim do Budokwai, Koizumi, 7º Dan)

Praticar uma Arte Marcial como simples treino desportivo equivale a cultivar flores num jardim de cimento; não produz flores nem eficácia. Os desportos estão codificados por regulamentos estabelecidos para suprimir o máximo de perigo; é o objectivo do desporto. As Artes Marciais devem fomentar a audácia, o sangue frio, a resistência, o golpe de vista, diante de um ataque armado (...) num combate em que se pode perder a vida (...), não um título.

(In "L’Aikido, l’arme et l’esprit du samourai japonais", Tadashi Abe, 7º Dan de Aikido, introdutor do Aikido na Europa)

 

Para a orientação da prática na Academia de Budo, o Mestre Corrêa Pereira procurou encontrar uma figura que representasse a mais pura tradição do Judo marcial. Assim, após longas negociações junto do governo japonês, foi recomendado à Academia o Mestre Masami Shirooka, inspector de Educação Física do Ministério da Educação Nacional do Japão, como um dos maiores mestres de Judo.


Devido às suas diligências Grandes Mestres do Judo e Aikido visitaram Portugal. António Corrêa Pereira Sensei é o primeiro português cinto negro (1º Dan) inscrito no Kodokan, membro da Kodokan Jujutsu Association. Torna-se também o primeiro Membro Honorário da União Dinamarquesa de Judo.

 

Em 1946 funda a Academia de Budo que fica a funcionar no 3º andar do nº 140 da Rua de S. Paulo.

 

Editou a primeira Revista de Judo em Portugal da qual saíram somente nove números. Sob o pseudónimo "Minuro", publicou o livro “A essência do judo” (1950) que mereceu as felicitações de Risei Kano e Kinosuka Tanaka.

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Fotografia de Sensei João Pires Martins.

Folha de rosto de Diploma e Carta assinada e homologada com hanko de Minoru Mochizuki Sensei a Sensei António Corrêa Pereira.

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Rosto da publicação Essência do Judo, com edição de 1950 de Corrêa Pereira Sensei sob o pseudónimo de "Minuro".

Título de Professor de Budo atribuído ao Sensei Corrêa Pereira a 6 de Fevereiro de 1960 pela União Portuguesa de Budo.